segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Minhas Tardes com Margueritte

Minhas Tardes com MargueritteAh... Como eu gostaria de passar algumas tardes com Margueritte! Sem dúvida, a adorável senhora seria inesquecível durante todos os dias que me restam. Ela é uma daquelas raras personagens que transportam o espectador para outra dimensão... uma dimensão mais doce e mais delicada que transforma a visão de mundo mesmo após o surgimento dos créditos.

Gisèle Casadesus (aos incríveis 96 anos de idade) é fantástica ao dimensionar sua personagem com tamanho afeto. Suas expressões faciais desfilam pensamentos que acompanham fielmente as palavras da sua amigável voz. Ah... Como eu gostaria de passar algumas tardes com Margueritte!

O roteiro coeso e muito bem estruturado (inclusive, em seus flashbacks imprescindíveis) do diretor Jean Becker e de Jean-Loup Dabadie, baseado no livro de Marie-Sabine Roger, permite a troca de sentimentos entre os personagens e o público sem se tornar um exemplar sentimentalóide. Para isso, abre mão de qualquer trilha sonora melodramática e conta com a formidável riqueza de detalhes emprestada por Gérard Depardieu à sua personagem.

Vivendo um ogro francês de poucos recursos intelectuais, mas tão afável quanto a própria Margueritte, Depardieu, em boa hora, surge como uma crítica sutil aos valores perdidos e, mesmo que não seja espelho para os analfabetos funcionais (que, possivelmente, não chegarão perto desse filme), é introduzido (e tem o poder de introduzir o espectador) no universo mágico dos livros. “Ler? Tentei uma vez e não deu muito certo.”, afirma.

Apostando na simplicidade e apoiado em um elenco extremamente comprometido, Jean Becker apresenta um trabalho inquestionável de poesia visual (apoiado pela brilhante fotografia quase vintage de Arthur Cloquet), ressaltando com excelentes planos, inclusive, a improvável comoção de um gato ao escutar Germain (Depardieu), em vão, procurar e entender palavras em um dicionário.

Curto em sua duração, mas gigante em suas intenções, todos os minutos do filme são dignos de apreciação... assim como cada frase de um bom livro. Ah... Como eu gostaria de passar algumas tardes com Margueritte!

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